Será a semana yorùbá um método para solução de problemas?

O nome dos dias da semana Yorùbá podem ser entendidos como uma sequência de ações, um método para nos ajudar no dia a dia. Você sabia?

Nesse método a quarta-feira Ọjó̩ rùú (dia da confusão) é o primeiro estágio.


Quarta-feira? Dia da confusão? Tô fora !


Com nossa mente compromissada com o sucesso, entendendo vida feliz como uma vida sem desafios, sem problemas, já vamos pensar na quarta-feira como um dia ruim, um dia a ser evitado. Mas, vejamos: quando Orí nos mostra que nossa vida está uma bagunça, que as coisas estão todas misturadas, que os interesses estão em conflito, quando realmente, damos ouvidos à Orí, nosso primeiro pensamento, nossa primeira palavra diante dessa situação é: minha vida está uma confusão só, preciso arrumar isso!

Assim, ganhar consciência de que algo vai mal, é bom!

Mas, o que fazer com a confusão?

A quinta-feira responde!


A Quinta-feira (Ọjó̩bọ̀) é o dia em que nossos ancestrais retornam (bọ̀) para Terra (Ayé).


Ganhamos a consciência no primeiro estágio de que nossas vidas (ou negócios) estão uma bagunça. Agora, nesse estágio somos orientados a recorrer aos nossos ancestrais. Buscar na experiência deles caminhos que nos conduzam a um melhor entendimento sobre a confusão em que estamos (ou nos metemos).

Ọ̀ṣùn, por exemplo, quando se viu diante de uma guerra contra a cidade de Ilaje, procurou ouvir os mais velhos. Numa outra ocasião, contam os Àgbà márún que ela, quando se viu em meio à guerra, antes de partir para o ataque, consultou os sábios, pois sabia que quando a guerra se instala na cidade (ou a confusão em nossas vidas) os sábios são aqueles a quem devemos consultar (Ọló̩gbó̩n l'a f'ọrọ lọ). Portanto, o conselho é o seguinte: quando reconhecemos que nossas vidas (ou negócios) estão uma bagunça, ouçamos a voz da experiência. Ouçamos os mais velhos, busquemos os nossos ancestrais.

Mas, atentem para o fato: Eles não farão por nós o que precisamos fazer por nós mesmos (afinal somos nós que estamos ou nos metemos na confusão). Mas podem ter certeza, eles nos ajudarão a entender melhor a situação para podermos seguir para o próximo estágio: a sexta-feira!


A sexta-feira (o̩jó̩ ẹtì) é o dia dos problemas.


Pronto! Ouvimos a palavra “problema” e já entramos no modo do “Querido Òrìṣà, me livra dessa!”. Nessa hora, nossos ancestrais nos dizem que se o assunto é nosso, não adiante ficar pedindo para quem quer que seja nos livrar. Não vai acontecer. Eles nos acolhem e, por certo, nos consolam e nos lembram:


O mundo é feito de coisas boas e de contrariedades, bondade e maldade, problemas e soluções (tibi tire la dá ilé ayé), portanto, tirem da cabeça essa coisa de livramento porque vocês não são melhores que os outros e não serão tratados de forma diferente.


Ou seja, eles nos ensinam que todo mundo tem problema, logo, nós não seremos exceção. Passado o pânico proveniente da idéia des-ca-bi-da de que é possível viver e não ter problemas, nos damos conta de que tudo começou como uma grande confusão (lá na quarta) e, ouvindo a voz da experiência (quinta feira), agora somos capazes de saber qual é o problema e quais são os nossos recursos para a sua solução. Eu, de minha parte, vivo falando: não me faltam recursos para realizar o que eu preciso. Mas, vejam bem: não me faltam recursos para realizar o que eu preciso, e não o que eu quero.

Bem, o terceiro estágio nos habilita a entendermos toda a situação, analisarmos nossas possibilidades, tendo como suporte a experiência acumulada dos mais velhos e, por fim, nos ajuda a pensarmos estratégias de resolução dos problemas.

Agora que alcançamos a compreensão no terceiro estágio, estamos pronto para o sábado.


O sábado (o̩jó̩ àbámẹ́ta) é o dia de resolver os problemas.


A forma como é chamado o sábado é bem interessante. Composto por duas palavras (àbá - deliberação e mẹ́ta - três), que numa interpretação livre poderíamos traduzir por “três deliberações”, parece apontar para a ideia de que o número três é uma forma de dizer “quantas forem necessárias” ou “várias vezes, até conseguir”. Essa ideia também podemos encontrar no provérbio “oríta mẹ́ta kò kọ̀ ẹbọ” (uma encruzilha de várias ruas não rejeita sacrifício). Por isso, depois de termos refletido, à luz da palavra dos mais velhos, entendido qual é o problema, partimos para busca (até encontrar) de soluções possíveis. Nesse estágio do método, é preciso por as mãos na massa, encarar e não parar até resolver os problemas. Plano a... plano b... plano c ... plano mé̩ta… E vamos resolver!

Resolvido o problema e agora, qual o próximo passo?

O domingo nos dirá!


Domingo (o̩jó̩ ìsinmi) é o dia do descanso.


Depois de muito empenho em uma atividade é normal que precisemos de uma pausa. É o que nos orienta este estágio do método, pois vejamos. Estivemos debruçados sobre uma situação que incialmente nem compreendíamos, tal era a confusão estabelecida (fase 1). Nossos ancestrais, ou melhor, a experiência deles (fase 2) foi o nosso recurso (sempre é). Com essa ajuda entendemos qual era o problema (fase 3) e partimos para busca de soluções, tendo como máxima (herdada de nossos pais ancestrais) que todo problema tem uma solução e se por ventura, não tem solução, então não é problema. A partir desse entendimento, nos dedicamos de forma incansável na busca de soluções, (fase 4). Não paramos, não desistimos e por conseguinte, encontramos uma solução. Agora precisamos de uma pausa, um descanso (ìsinmi), pois resolver um problema da vida não é resolver a vida toda. Outros problemas virão e precisaremos de fôlego para enfrentá-los.

“A vida continua, a vida continua, e eu não vou ficar sozinho no meio da rua, no meio da rua, esperando que alguém me dê a mão” nos ensina o nosso perpétuo poeta Jorge Benjor.

A vida continua e o método também. Depois da pausa seguimos para segunda-feira.


Segunda-feira (o̩jó̩ ajé) é o dia de prosperar.


Depois de um merecido descanso, agora estamos prontos para prosperar em nossas atividades.

Atenção: Eu disse prosperar. Não disse ganhar dinheiro.

Alguns dicionários traduzem o termo “ajé” por dinheiro. Esta tradução é feita, muito provavelmente por causa de um pensamento capitalista colonial, onde felicidade e sucesso é ter casa, carro, bens materiais e por ai a fora. Posso afirmar que dinheiro, definitivamente, não é a melhor palavra para traduzir o significado do termo “ajé”. Pro exemplo, dentre as coisas mais desejadas pelos yorùbá estão vida longa (ire àikú), filhos (ire ọmọ), prosperidade (ire ajé) e também dinheiro (ire owó). Observem que figuram na mesma lista de coisas boas (ire) dinheiro e prosperidade, logo é de se supor que, para aquela cultura, não seja a mesma coisa.

Diga-se de passagem: Ajé é uma divindade que pode até trazer riqueza para vida de uma pessoa, como ela fez com Ọbàtátá, em agradecimento pela acolhida oferecida pelo nosso pai em sua casa, contam os mais velhos, mas ela mesma não é o dinheiro.

Segundo me parece, prosperar ou ter uma vida próspera tem relação com poder dispor dos recursos (inclui dinheiro, mas, também e principalmente, vida longa e saúde) para realização de nosso propósito (àyánmọ), aquele mesmo que fizemos antes de vir para o Ayé. Não sei se já sabiam, mas fizemos um acordo (ìpín) para vir para cá e nosso dever moral (afinal, fizemos um acordo) é despertar nosso orí, para que ele nos orí-ente quanto ao que fazer e, fundamentalmente, fazer o que for necessário para cumprir o destino que nós mesmos escolhemos antes de nascer.

Ter uma vida próspera ou prosperar em nossas atividades, para mim é o mesmo que ter uma vida feliz. Assim, nesse estágio do método, somos convidados para prosseguir na realização de nosso propósito ou, nos meus termos, prosseguir com a realização de nossa vida, que é feliz.

Mas, não parem agora! Ainda falta a terça-feira.


Terça-feira (o̩jó̩ ìṣẹ́gun) é o dia da vitória.


Se seguimos todas as orientações até aqui, o último estágio do método é a vitória (ìṣẹ́gun). O resultado não pode ser outro. Esse método nunca falha. Eu sei, eu sei, parece absurdo, mas, não é. É um fato que em nossas lutas diárias amargamos alguns fracassos e derrotas. Contudo, se, a despeito dessa condição que a luta pela sobrevivência nos impõe a todos (ganhar ou perder), buscamos, diante de uma situação confusa (ọjọ́ rùú ) a experiência de nossos ancestrais (ọjọ́ bọ̀), procurando entender o problema para melhor agir (o̩jó̩ ẹtì), agindo sem descanso, (ọjó̩ àbámẹ́ta) para retirada de todos os obstáculos à nossa prosperidade, e se, depois de um merecido (estratégico) descanso (ọjọ́ ìsinmi), seguimos na realização de nosso propósito (ọjọ́ ajé), ah... não tenham dúvidas, somos vitoriosos, pois a vitória não está em vencer todas as batalhas ou guerras. A vitória está em vencer o medo de fracassar, vencer a necessidade de ser sempre bem-sucedido em tudo. A vitória real está em não desistir, apesar de todas as forças contrárias e continuar lutando... Não desistir e continuar lutando e, para além de qualquer argumento, continuar porque:



1) Devemos isso aos nossos ancestrais que não desistiram e lutaram para estivéssemos hoje aqui.


2) Devemos isso também aos nossos decendentes que dependem de nós.


3) E, sobretudo, devemos isso a nós mesmos.

Se assim pensamos e agimos, somos o orgulho de nossos ancestrais e a inspiração para nossos descendentes e a despeito de qualquer pensamento contrário, somos vencedores.


Olùkọ́ Bàbá Ò̩nà


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